segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A CIENCIA E A TECNOLOGIA QUE OS AFRICANOS INVENTARAM


Pena que a idéia tardia de ciência reelaborada no século XIX não foi capaz de incorporar as contribuições legadas pelas diversas civilizações africanas. Ao contrário, ao mesmo tempo em que se construía uma idéia de saber baseado na comprovação através da experiência, também se produzia um discurso depreciativo sobre o homem e a mulher negra, baseado em teorias que desautorizavam dentre outras coisas, os seus corpos. Assim se afirmava que o continente africano não tinha história, por exemplo, ou reservava a este, palavras preconceituosas como primitivismo ou pensamento infantil desprovido de qualquer veracidade quando se referia ao saber das religiões tradicionais.
No Brasil, a constituição das religiões de matriz africana é contemporânea a este episódio que se outrora empurrava para o mundo do diabo as práticas africanas, agora através de uma falsa ciência, condenava-se africanos(as) e seus descendentes a viver num mundo construído à margem de um pensamento que acabava de se reinventar no final do século XIX. A história das religiões de matriz africana é assim, uma história de enfrentamentos constantes de discursos que desde cedo silenciou-se sobre o legado, continuidade ou mesmo reinvenção dos universos africanos fragmentados pela escravidão.
Comecemos pelo Egito, que durante muito tempo foi representado ou fora do Continente africano, ou como uma população branca. É bem certa a idéia de que o pai da medicina é certamente africano e não o grego Hipócrates. Os egípcios tinham uma visão integrada do corpo, em outras palavras, a mumificação só era possível graças não apenas a crença na continuidade da vida após a morte, mas ao conhecimento de que o corpo forma um organismo, conjunto de partes integradas. Isso perpassa a maioria do pensamento africano. É aquela idéia da teia a qual sempre nos referimos. Talvez dos africanos e dos povos vizinhos com os quais desde cedo se relacionaram apenas restou a imagem da cobra como símbolo da medicina, interpretada posteriormente como símbolo de traição. Para alguns grupos africanos entrados no Brasil, por exemplo, ao contrário, a cobra, chamada Dan, não é simplesmente um ser, mas famílias agrupadas sob tal nome: o povo da cobra. A cobra é símbolo de crescimento, prosperidade, como tudo que é alongado ou cresce para cima. O Antigo Reino do Dahomé, Abomé ou Danxomé, atual República de Benin, acreditava que estava assentado sobre o corpo de Dan, daí a origem do nome. Vamos encontrar a mesma imagem na cidade de São Luís do Maranhão, “a ilha que vive circulada por uma grande cobra que morde a sua calda.” No dia em que Dan deixar de fazer esse movimento, a ilha desaparece. Dan é símbolo da ciência africana que se movimenta em círculo no sentido anti horário como a roda nos terreiros de candomblé.
Várias vezes tenho lembrado sobre o profundo conhecimento da tecnologia do ferro que os povos chegados ao Brasil chamados genericamente angolas/congos possuíam. Não precisamos nem relembrar a mudança na vida das civilizações quando o arado de madeira foi substituído pela enxada. E aqui lembramos do ancestral Ogun, literalmente: o ferro. Ogun representa uma verdadeira revolução no mundo da tecnologia e do desenvolvimento, talvez tenha sido por isso que desde cedo os ferreiros foram considerados mágicos. Ogum trouxe o fogo para dentro de sua casa e graças a ele, pode forjar os instrumentos cirúrgicos.
Em textos anteriores já chamamos a atenção para a importância do cordão umbilical para os grupos africanos, ao menos aqueles que chegaram ao Brasil. Da forma como a criança vinha ao mundo e dos cuidados que se tinha com o cordão, acreditava-se na possibilidade de prever ou mesmo interferir em acontecimentos como doenças e morte, por exemplo. Em outras palavras, o cordão umbilical era tratado como uma síntese da pessoa. Pena que a idéia de DNA chegou tarde demais para a ciência. Ainda hoje este pensamento continua vivo nas comunidades terreiros.
E a idéia da vida como um todo integrado? Para o “ pensamento africano” o Mundo faz parte do principio vital, por isso ele é vivo, assim como tudo que pertence a ele. Como lembra a tradição bakongo: Nganga Zambi, também chamado Kalunga, fez tudo junto, como um pacote e dentro desse pacote colocou de tudo, estava criado o ciclo da vida. Em outras palavras, a separação veio depois, mas estar no mundo é fazer parte da Kanga que Kalunga amarrou todas as coisas dando inicio a tudo que tem principio, mas não tem fim, pois a vida é um eterno renascimento. Graças a isso, o todo é maior do que a soma das partes, mais a menor parte contém o Todo, daí o cuidado com tudo aquilo que sai do corpo e com as extremidades.
E como não falarmos da matemática? Não dos números, mais de idéias como: precisão, infinito, grandeza, etc. Basta prestarmos atenção nas linhas que se encontram traçadas no corpo dos iniciados, ou nas linhas paralelas, os círculos que demarcam dias, baseados onde o sol nasce e onde ele se poe.
E a escrita? Outro legado africano das populações presentes nos limites do deserto de Saara e do Sudão. Pena que desde cedo se criou a oposição entre esta e a chamada oralidade, que venho insistindo que não pode ser compreendida desta maneira. Há várias formas de linguagem, há até aquelas que incluem o não dito e o silêncio. Mais uma vez o exemplo é o corpo dos iniciados. O corpo dos iniciados é um texto, somente compreendido pelo grupo religioso que está constantemente lhe reescrevendo.
Gostaria ainda de lembrar das várias técnicas de adivinhação desenvolvidas pelos africanos e mantidas ainda hoje nos terreiros de candomblé. Como dizer que esse saber não é científico? Ou por que sempre se está procurando desautorizar estes conhecimentos em nome de uma ciência? Não estamos nos referindo a práticas que apreciamos no cotidiano ou em ocasiões especiais como no final de ano, quando alguns sacerdotes aceitam ser expostos pela mídia transformando um constituinte do saber ancestral em algo, no mínimo exótico e curioso. Refiro-me a saberes complexos, elaborados, guardados por poucos sacerdotes e sacerdotisas que ao invés de adivinhar, divinizam; tornam as situações vividas pelas pessoas, divinas. Em outras palavras, interpretam o divino que esta nas pessoas através dos chamados caminhos; caminhos múltiplos que se encontram na encruzilhada.
Não poderia deixar de mencionar o conhecimento diverso elaborado desde cedo pelos africanos sobre as curas e doenças. Isso reaparece nas religiões de matriz africana, onde o mais importante não é a doença, mas conduzir o doente à cura. Junta-se a isso, o valor atribuído a comida. Nos terreiros tudo come, recebe tratamento especial. Sem comida não há vida. As inovações introduzidas pela chamada era da modernidade na alimentação talvez seja um dos maiores desafios para as comunidades terreiros nos próximos 100 anos. Aqui, saúde e comida estão interligadas. Esse é um tema que merece uma reflexão a parte. Certo que nas comunidades terreiros não se come apenas iguarias que resistem á estas intervenções, isso é observado apenas nas chamadas “comidas ritual”, embora aos poucos esse fato venha se modificando. Verdade é que desde cedo, os terreiros adotaram uma alimentação a base de inhame, por exemplo, reconhecido apenas hoje como algo que reúne várias funções, dentre elas a de ser preventivo contra o câncer.
E o pilão? A tecelagem? Contribuições africanas que reaparecem nos terreiros de candomblé onde a idéia de fiar é muito importante. Uma rede é constituída de fios. Mais uma vez a idéia da teia. È o entrelaçamento dos fios que sustentam a teia da vida, lhe dando equilíbrio. Essa é a razão pela qual em algumas tradições se diz que Yemanjá é a dona da cabeça, cabeça que representa todo o corpo. Yemanjá não segura apenas as nossas cabeças, mas está presente em tudo que se combina, nos fios de conta, por exemplo, outra imagem bastante ilustrativa do que estamos falando. Ogun inventou a forja trazendo ao mundo a ciência e junto com Yemanjá, sua mãe criou-se a tecnologia, entendida como um modo de fazer sempre aperfeiçoado, ou um fazer sistemático sempre aprimorado. Quer entender mais? Observe atentamente os fios que “enfeitam” o pescoço dos iniciado; por mais que as contas possam ser diferentes, elas compõem um conjunto, formam um sistema, garantido por Yemanjá que não permite que as linhas que formam o mundo se partam, garantindo assim o equilíbrio de tudo que tem vida. Talvez este seja um dos maiores desafios para o próximo saber cientifico que esta para se constituir.

8 comentários:

  1. Walber Gomes da Silva3 de agosto de 2010 10:35

    Gostei muito do texto. Sou estudante do Penesb, da Universidade Federal Fluminense,e gostaria muito de saber a bibliografia usada no artigo.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Entre outras invençoes africanas está a escravidao dos judeos pelos Egipcios.

    Sinceramente, a contribuiçao da africa para a ciencia vai desde nula a inutil.

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    1. Caro amigo anônimo,
      A etnociência é uma corrente fortíssima da qual se baseiam a maior parte (se não toda) das ciências consideradas de ponta. Atualmente existem inúmeras pesquisas sendo realizadas em torno da vivência de comunidades quilombolas com o meio ambiente. Conhecimento botânico, zoológico e ecológico são as maiores contribuições. Sem falar na biotecnologia moderna da Africa do Sul.
      Não cite a escravidão dos judeUs como pretexto para justificar seu argumento. Vários povos africanos foram muito mais escravizados e nem por isso usamos esse (fraco) argumento para justificar nosso atraso. Atraso este que não diz respeito a ciência e sim atraso político.
      Sugiro que se recicle em torno do assunto!

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    2. não me diga oh que inpressionante kkkkkkkkk

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  4. Adivinhaçao é exatamente o oposto de investigaçao, em outra palavras advinhaçao é uma anticiencia.

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  5. Muito bom o texto mas eu queria saber o que é que signfica outrora

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